
Mataram minha Fonte Nova
Meu blog de Setembro é um grito de “Baêeeeeeeeeeea, minha porra!”
E vou logo dizendo: é pra quem é baiano, torcedor do “Baêeeeaaa!”
Se você detesta futebol e não sabe nada sobre o Bahia, pode sair do blog. Porque é assim que chamamos nosso tricolor baiano. “Baêeeeeeeea, poooooorraaaaaaaaaaaaaaaaaa”. Bem alto.
O único time brasileiro que tem uma mascote desenhada por Ziraldo. O super-homem pintado pelo pai do menino maluquinho. O tricolor de aço. Que tá todo enferrujado e fodido, tadinho.
Mas também não é uma homenagem ao Esporte Clube Bahia somente. Muito menos ao antigo governador Octávio Mangabeira, que governou esse nosso estado que chamamos alegria, de mil novecentos e Dercy Gonçalves até mil novecentos e Glória Maria. Um governador que dizia sabiamente: “Pense num absurdo. Na Bahia tem precedentes”.
Esse blog é uma homenagem à Fonte Nova.
Octávio Mangabeira é o nome oficial do estádio de futebol estadual, municipal, não sei que cu meu pau, carinhosamente apelidado por nós, baianos, de Fonte Nova.
A Fonte Nova está interditada desde que o Bahia subiu da terceira pra segunda divisão. Quando saiu da merda pra cair na lama. Com cinqüenta mil baianos cantantes e alegres festejando esse “grande feito”. Grande bosta. Como se não fosse obrigação um time bicampeão brasileiro sair da terceira pra, pelo menos, segunda divisão.
Quando por irresponsabilidade e falta de competência administrativa permitiram uma super lotação num estádio podre, esfacelado, disfarçado de modernidade com banheiros imundos e arquibancadas bêbadas, porém com cadeiras pintadas de azul, vermelho e branco. Uma situação que permitiu que oito torcedores morressem nesse dia ridículo, quando uma parte da estrutura do estádio cedeu e, ignorando o fato, comemorássemos com buzinaços pelas ruas o fato de vermos o nosso Bahia subir da terceira pra segunda divisão. Como se tivéssemos ganhado uma copa do mundo.
Por eu estar presente no dia em que a Fonte Nova teve sua lotação máxima, 110.000 torcedores do Bahia no jogo em que ganhamos de 2 a 1 contra o Fluminense em 88, ano em que o Bahia foi campeão pela segunda vez de um campeonato nacional, quando passo hoje pelo meu querido estádio e vejo aquele Coliseu sem trono, sem charme, sem vida, fico triste. Aquele cemitério de cimento e lixo que restou da Fonte Nova polui o visual lindíssimo do Dique do Tororó, cartão postal belíssimo da nossa cidade que expõe as obras de arte maravilhosas de Tati Moreno. Então penso “somos uns fodidos mesmo”.
Jaques Wagner, nosso atual governador, dias antes do tal acidente, havia prometido aos baianos que a seleção brasileira disputaria uma partida das eliminatórias na Fonte Nova. Não sei de que tipo de eliminatórias ele falava. Se do campeonato ou dos torcedores. Mas olha como o baiano é abençoado: O acidente que interditou a Fonte Nova nos impediu de ver um jogo da seleção de Dunga! Pra ver pelada basta a gente ir pra Feira assistir Bahia e Barueri.
O Bahia não merecia jogar em Feira. Nada contra Feira de Santana, uma cidade cheia de pessoas adoráveis e segundo maior município do estado. Mas o Bahia sem Fonte Nova é o Flamengo sem o Maracanã. O São Paulo sem o Rogério Ceni. O Chiclete sem Bell. Tarzan sem Jane. Wall-E sem Eve. Buchecha sem Claudinho. O Paulo sem o Borges.
Como diria Caetano, quem não amou a elegância sutil de Bobô? Quem não se lembra do gol de Raudnei, aos quarenta e muitos minutos do segundo tempo naquela final do campeonato baiano, num Bavi emocionante, que ganhamos pela milionésima vez, que fez Jorginho Sampaio, atual dirigente do Vitória, botar a mão na careca e dizer: ”Puta que pariu! Isso só acontece com o Vitória”?
Quem não se lembra de Zanata cruzando de qualquer jeito, de olho fechado, pra qualquer lugar da grande área, certinho pra cabeçada de Bobô? Quem não se lembra de Beijoca? De Sapatão (não gente, não estou falando da Ângela Rô Rô. E sim do maior zagueiro que o Bahia já teve). Quem não se lembra de Dadá Maravilha parando no ar, marcando seus gols “beija-flor” e sendo coroado rei na Fonte Nova? Batendo uma bronha no vestiário no intervalo pra “relaxar”? Quem não se lembra de Osni sendo técnico e ponta de lança ao mesmo tempo, num jogão em que o Bahia ganhou de não sei quanto a zero pro ex-freguês Vitória?
Quem não se lembra de Ronaldo Fenômeno, ainda no Cruzeiro, com dezesseis anos, sem Cicarelis ou travecos, dando um balé em Rodolfo Rodrigues e marcando um golaço histórico? Quem não se lembra de Léo Oliveira, Osmar, Ronaldo - o goleiro anão que mais alegrias deu ao Bahia? Por falar em anão, quem não se lembra do anão do Bahia? Aquele torcedor mini-me que fez aquela propaganda bizarra falando com a boca cheia de galinha assada? E o Loirinho e seus bonecos de plástico?
Quem não se lembra de Charles sendo arrastado da concentração da seleção brasileira de Lazaroni por Paulo Maracajá, porque aquele escroto daquele técnico safado convocou o maior craque do Bahia antes da copa América de mil novecentos e Bebeto e não o escalou pros jogos do campeonato? Foi na Fonte Nova que a torcida virou as costas na hora do hino nacional e torceu pro Paraguai. Torcedor do Bahia torce pro Bahia. O Brasil que se foda!
A Bahia está passando por um momento curioso na sua história. Seus ícones estão se despedindo da gente. Lá atrás, foi-se Dodô. Depois, Osmar. Um pouco mais tarde foram-se Mãe Menininha e Irmã Dulce. Béu Machado. Wally Salomão. Jorge Amado. E então, de uma só vez, se vão ACM, Zelia Gattai, Dorival Caymmi, Stella Maris, Waldick Soriano. Ícones do nosso estado. Pessoas que construíram nossa baianidade. Nosso jeito de ser e de parecer.
Só não o enterramos ainda, mas convenhamos, a nossa Fonte Nova também morreu. O lugar em que vimos um Vitória ser vice-campeão contra um Palmeiras imbatível. Não fosse aquele Palmeiras, desculpem-me tricolores, teríamos o Vitória, nosso eterno rival, também com uma estrela no peito. Com todos os méritos.
Mataram nossa Fonte Nova. Onde íamos comer amendoim cozido, beber cerveja quente em copão de plástico, em pé, atrás do alambrado, vendo o Bahia dar cinco a zero no santos na reestréia de Sócrates. Mataram nossa Fonte Nova. Conseguiram isso.
E agora, nós, torcedores do Bahia, esperamos angustiados a inauguração do estádio de Pituaçu!!! Pituaçu! Alguém sabe o que significa essa palavra: Pituaçu? Parece nome de fruta que dá em mato que cabrito faz cocô.
Nãoooooo! Não posso imaginar Uésley marcando um golaço de falta contra o Vitória aos quarenta e cinco do segundo tempo e ouvir Márcio Martins dizendo “foi uma cobrança de falta perfeita, Bocão. A bola bateu na trave do gol da direção da barraca de Jajá e entrou no ângulo superior direito do gol adversário”.
Comemorar inauguração de um estádio chamado Pituaçu, pra quem cresceu assistindo jogos do Bahia na Fonte Nova é fazer buzinaço por ver o Bahia subir da terceira pra segunda divisão. Com direito a oito torcedores esparramados no chão por conta de um buraco na arquibancada. Sem que ninguém pague por isso.
Nada contra o Pituaçu! Mas queremos nossa Fonte Nova de volta. Novíssima! Que seja digna da torcida do Bahia. Um estádio. Não um improviso que disfarça o absurdo ocorrido naquele fatídico acidente. Não um campo de várzea decorado às pressas pra atender as necessidades de um Bahia mal administrado, mal das pernas e de mal com a torcida. Esse Pituaçu é um engodo. Um armengue. Um cacete armado pra enganar torcedor otário. E nos vendem, não sei com que intenção, que teremos a nossa ”arena”. Com inauguração prevista no jogo contra o Corínthians. Que tá na segunda divisão também. Mas que tem o Pacaembu. Que tá em primeiro na tabela disparado.
Estádio de Pituaçu é paleativo. Quero é saber da Fonte Nova. Cadê aquele projeto de demolir e construir um estádio novo com padrão internacional? Que merda de enrolação é essa? E o torcedor? Ele que tome no meio do Pituaçu dele. Feliz. Pertinho da praia.
Quanto ao Vitória, parabéns. Vai permanecer na primeira divisão, tem o Barradão e é forte candidato a se classificar pra copa sul-americana.
Como torcedor do Bahia, rezo pra permanecer na segunda. Porque com essa administração carniça que tá aí a gente merece mesmo é implorar pra jogar uns babinhas em estádio coberto de urubu.
Sou da banda que acabou de lançar um DVD que tem nos extras um link chamado “Homenagem ao Esporte Clube Bahia”. Ver Ondina inteira cantando “Baêaaaaaaa, Baêeeeeeea minha vida! Você é meu orgulho! Você é meu amor ô, uô”, é arrepiante! Mas ouvir esse coro que ouvi tantas vezes numa Fonte Nova lotada num improviso chamado Pituaçu é deprimente.
Pituaçu, tá na cara, vai virar espaço pra shows de axé. O gramado que se foda. O torcedor que se foda. Eu que me foda. Porque sou Bahia, vou praquela merda mesmo, gritar “Baêeeeea minha pôrra” e só em 2014, perto da copa, lembrar: ”E a Fonte Nova, hein?”.
Fala sério. Você não pensa que vai assistir Brasil contra Argentina numa coisa chamada Pituaçu, vai?
Sou Bahia. Sou feliz. De coração.
Mas Pituaçu não é pro meu Bahia. Pituaçu parece nome de pinga!
E quero ver mesmo essa bosta funcionar no tal dia do jogo conra o Corinthians. Não prepare a Kombi pra ir pra Feira não, fique aí…
Fonte: Blog do jammil
3 comentários:
O bahia vai voltar ao que era antes, como tá não pode ficar. Bora baêêa.
Pensei q havia sido a FONTE NOVA q havia matado 7....
Pensou errado, quem matou as pessoas foram as picuinhas que não permitiam a recuperaçao real da Fonte, por entenderam que assim estavam beneficiando o Bahia ou a sua Diretoria burra e nisso o caos foi aos poucos se instalando, até matar os sete.
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